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Abraçando a complexidade: envolvendo a mente, o corpo e as emoções

28/05/2019

O Youth Empowerment Project – YEP, uma organização americana parceira da Rede Cidadã, publicou um artigo muito interessante sobre a implementação da nossa metodologia de Desenvolvimento Sociocomportamental junto a seus públicos atendidos. Confira abaixo.

 

“Os especialistas geralmente concordam com a importância de abordagens holísticas e integradas para atender às necessidades dos 4,6 milhões de jovens nos Estados Unidos que não estão na escola, em capacitações ou no trabalho. No entanto, os profissionais muitas vezes carecem de ferramentas suficientes – e de um roteiro – para acolher a complexidade e atender às necessidades dos jovens em tudo, desde treinamento de habilidades profissionais e apoio emocional até a autoestima e esperança no futuro.

E se soluções promissoras para tais desafios pudessem ser encontradas por meio de uma combinação cuidadosa de abordagens de diferentes partes do mundo? Essa alquimia criativa está no coração do trabalho da Rede Cidadã no Brasil. A metodologia de empregabilidade da juventude da Rede incorpora música, movimento, atenção plena, respiração, diálogo e reflexão em um treinamento de quarenta horas que cultiva aquilo a que se refere como os três centros de sabedoria: corpo, mente e emoções. Ao fazê-lo, pega emprestado elementos das tradições contemplativas, da sabedoria indígena e dos gostos do psicólogo chileno Rolando Toro, do educador e filósofo brasileiro Paulo Freire e do sociólogo francês Edgar Morin.

A Rede desenvolveu seu modelo holístico e híbrido, em parte, em resposta aos seus parceiros empregadores, que mencionaram problemas com a motivação dos jovens e sua retenção nos empregos. Enquanto há cinco anos atrás, 30% dos jovens da Rede treinados com habilidades técnicas e de vida deixariam seus empregos dentro de um ano, hoje esse número caiu para 5%. O motivo? As pessoas capacitadas pela Rede agora se sentem mais satisfeitas e capazes de navegar por emoções difíceis e ambientes estressantes.

Enquanto o mercado priorizava o desenvolvimento de habilidades, os jovens precisavam de apoio para mudar mentalidades profundamente entrincheiradas.

“A maior barreira que as pessoas enfrentam é a forma como se percebem”, diz Daniela Ísis de Souza Araújo, Facilitadora de Treinamento da Rede, na ocasião. “A maioria das pessoas tem uma opinião crítica sobre si mesma.”

“Sua atitude pode construir ou destruir você”, acrescenta a treinadora Marcela Íris de Souza. “Os jovens são socializados de acordo com certas normas. Precisamos quebrar o padrão de normalidade.” Para ilustrar seu ponto, Marcela aponta para a resposta de “luta ou fuga” que é acionada quando os humanos percebem uma ameaça em seu ambiente. O treinamento da Rede prepara os jovens para estarem conscientes de quando são acionados (por exemplo, por colega de trabalho) e como gerenciar suas reações e atitudes.

Muitos fatores contribuem para nutrir atitudes positivas entre os participantes dos cursos da Rede – de reservar um tempo para identificar suas habilidades (por exemplo, relembrando relações e experiências positivas ou compartilhando a origem de seus nomes) para promover uma comunidade unida a técnicas de mindfulness para gerenciar seus pensamentos e emoções.

Descobertas neurocientíficas recentes demonstram os muitos benefícios de superar o pensamento negativo e a autocrítica. James Doty, fundador e diretor do Centro de Pesquisa de Compaixão e Altruísmo (CCARE) da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford, enfatiza o impacto que a autocompaixão e o autocontrole, desenvolvidos por meio das técnicas de atenção, pode ter na saúde mental e física . Ele também ressalta a importância que a conexão entre as pessoas tem para o bem-estar geral. Através da criação de espaços seguros para os participantes se expressarem e serem vulneráveis, a Rede promove essas conexões mais profundas.

Sabedoria incorporada

O currículo da Rede concentra-se em cultivar quatro relacionamentos fundamentais – com o próprio eu; com os amigos, a família e os vizinhos; com os colegas profissionais; e com o planeta – com conteúdo integrado por meio de atividades experienciais, diálogo e reflexão. A natureza transdisciplinar das sessões reflete a filosofia da complexidade do sociólogo francês Edgar Morin e a crença de que as abordagens contemporâneas da educação e dos problemas sociais haviam se fragmentado.

Em um exercício, chamado “Olhar de Frida Kahlo”, os participantes formam um grande círculo. Cada um deles se reveza fazendo contato visual com um colega e caminhando confiantemente na direção deles. O exercício, conduzido por batidas pesadas, está enraizado na teoria da educação biocêntrica de Rolando Toro. A formação circular e o contato visual reforçam a conexão entre os participantes. O passo deliberado permite que cada um incorpore aquilo que sente ser a intenção e a determinação – o tipo necessário para atingir os objetivos da vida.

Para Toro, que morreu em 2010, uma ênfase exagerada na aprendizagem cognitiva na educação e no treinamento muitas vezes negava o papel dos sentidos e o instinto de informar a inteligência humana e a tomada de decisões. Ele entendeu que as emoções se manifestam no corpo, por exemplo, o modo como a ansiedade produz um “nó no estômago”. Através do que ele denominou biodanza, ou biodança, os indivíduos experimentam diversas emoções. Dependendo do exercício, podem surgir memórias dolorosas (por exemplo, a perda de um membro da família ou de um amigo), juntamente com sentimentos de empatia e alegria. O objetivo não é suprimir sentimentos, mas demonstrar que as emoções são parte da experiência humana e a base para formar fortes conexões com os outros. Em última análise, os exercícios de biodança têm como objetivo despertar a sensação de estar vibrantemente vivo. Os participantes assumem seus papéis de protagonistas ativos em suas próprias vidas.

Uma mensagem de inclusão

Para a Rede, tão importante quanto capacitar os jovens para ter sucesso no local de trabalho é reforçar uma mensagem de inclusão e um compromisso com o bem maior. Seu foco na transformação individual procura, em última análise, contribuir para uma mudança social mais ampla.

Para os jovens cujas circunstâncias de vida os deixaram alienados da sociedade, a metodologia da Rede enfatiza a conexão e a construção da comunidade. As sessões são normalmente realizadas em círculo, com contato visual direto, mãos dadas e abraços opcionais integrados ao processo. Dentro de um círculo ninguém fica de fora e todos os membros têm igual valor, enfatiza Marcela.

A ênfase da Rede na aprendizagem ativa e na inclusão social bebe na fonte das teorias educacionais de Paulo Freire. Freire enfatizou a importância de envolver os membros marginalizados da sociedade como aprendizes ativos e equipá-los com o que ele chamou de consciência crítica e a agência de ser uma força para a mudança positiva. Em um exercício da Rede, “O andar democrático”, os participantes passeiam pela sala de treinamento e são incentivados a ocupar o máximo de espaço possível. Quando solicitado a parar, um subconjunto do grupo normalmente se encontra na periferia.

“Muitos jovens são marginalizados”, diz Marcela ao explicar o exercício. “Precisamos estar conscientes de quem está nos limites e como podemos trazê-los para dentro.” Tais atividades podem soar sutis. No entanto, quando os participantes dialogam e refletem sobre seu significado, a mensagem é internalizada. Para sustentar o impacto deste e de outros exercícios, os facilitadores enviam mensagens semanais aos participantes do treinamento via Facebook e WhatsApp, com citações e lembretes de técnicas para manter o equilíbrio interno e os relacionamentos positivos.

Como a Rede chegou aos componentes agora incluídos em sua metodologia? Sua ênfase na cura de pessoas inteiras se baseia na psicologia, biologia, neurofisiologia e teoria da complexidade. “Oferecemos uma progressão de experiências para que os jovens possam desenvolver a inteligência emocional para alcançar mais equilíbrio em todos os setores da vida”, diz Marcela. As atividades que fundamentam a juventude no presente reforçam a noção de que gerenciar as emoções e os pensamentos é uma prática diária – e que nunca termina. O objetivo é equipar os jovens com as ferramentas para serem menos reativos e mais proativos. Também é fundamental ajudar a juventude a reformular experiências de vida, incluindo emoções dolorosas, para que elas se tornem menos destrutivas, diz Marcela. “A combinação de técnicas – mindfulness, movimento, diálogo, reflexão – em última análise, procura integrar atitudes positivas e tornar os jovens mais conscientes dos pensamentos irracionais e autodestrutivos”, diz ela.

Até agora, a juventude de Nova Orleans ressoa com a abordagem holística da Rede. “Eu nunca fui recebido com tanta positividade”, disse Jevon Le Blanc, beneficiário do YEP que participou de uma série de exercícios da Rede. “Se tivesse sido um processo que foi ensinado com caneta e papel por uma pessoa em uma sala de aula, eu teria obtido os detalhes técnicos”, diz ele. “Mas eu teria experimentado uma genuína mudança emocional em mim mesmo, para sentir genuíno amor-próprio?”, ele pergunta retoricamente.

Garantir que jovens como Le Blanc experimentem uma transformação interna positiva está no centro da missão da Rede.

A equipe do YEP fala: “O melhor presente de todos os tempos”

A equipe do YEP em Nova Orleans recentemente teve a chance de testar a “metodologia da pessoa integral” da Rede – um marco importante em uma jornada de 18 meses facilitada pelo (Re)Connecting Youth, uma iniciativa da Fundação Internacional da Juventude para aprender e alavancar práticas globais promissoras e atender às necessidades de jovens fora da escola e fora do trabalho. Muito estava em jogo. A equipe adotaria uma nova abordagem – mais física e emocional – para o treinamento de preparação para o trabalho?

Enquanto o currículo principal do YEP já incorporava instrução de habilidades para a vida, o modelo da Rede oferecia novos mecanismos de entrega (por exemplo, movimento para música, meditação) e novas ferramentas para ajudar os jovens a lidar com emoções e se sentir mais conectados como parte de uma comunidade.

Antes do treinamento, os membros da equipe expressaram ceticismo. Surgiram rumores de que o modelo de Rede incorporava dança, compartilhamento pessoal e o ocasional abraço. A natureza delicada do treinamento surgiu como superficial à luz de demandas de trabalho e das necessidades reais da população jovem que o YEP atende.

O que os funcionários não perceberam é o quanto eles se beneficiariam. “Eu pensei que (o treinamento) seria sobre fazer melhor o meu trabalho. Foi sobre me fazer melhor”, disse Peola Trumble-Mckinnis, advogada do YEP.

Sandra Washington, Diretora do Programa de Justiça Juvenil do YEP para a St. Charles Parish, concordou. “Há dois meses atrás, eu não tinha muito mais para dar de mim”, disse ela, chamando o treinamento de “o melhor presente de todos os tempos”.

Suas reações ressaltam um princípio crítico da abordagem da Rede – de que, para oferecer uma programação de qualidade para os jovens, os profissionais precisam desenvolver técnicas de autocuidado para evitar o desgaste e permanecer ancorados e presentes com aqueles a quem servem. A experiência deixou Sandra e outros se sentindo mais em paz, gratos, conectados, positivos. O que contribuiu para a mudança?

Por meio da respiração e da meditação projetada para relaxar o corpo e a mente, os membros da equipe ganharam novas ferramentas para controlar o estresse e as emoções complexas. Através da reflexão sobre experiências positivas de vida, o grupo relatou sentimentos de gratidão e satisfação em viver a vida de serviço. As atividades baseadas em movimento criaram espaço para expressão e conexão emocional.

Em colaboração com a equipe da YEP, a equipe da Rede desenvolveu uma versão de 15 horas de seu treinamento que foi recentemente testada com a juventude de Nova Orleans. Com base nos resultados do piloto, o treinamento será aprimorado, com o objetivo de integrar elementos do modelo da Rede à programação de empregabilidade do YEP.”


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